Reflexão sobre o filme ”12 Homens e uma Sentença” na ótica da teoria de Pichon-Riviére.

Introdução

O seguinte trabalho tem por objetivo apresentar uma discussão sobre o filme ‘’Doze homens e uma Sentença’’ o qual retrata as discussões de um júri popular acerca de um caso de assassinato, a análise crítica é baseada na teoria de Enrique Pichon-Rivière a luz da dialética e os grupos operativos. Tais conceitos podem ser identificados nas cenas e internalizados de forma a entender como o processo grupal é entendido por Pichon .

A demanda inicial desse caso se constituiu em um jovem pobre de 18 anos que é acusado de assassinar o próprio pai, pois, todas as evidências indicaram para sua condenação. Na votação preliminar, quase todos jurados votaram pela condenação e apenas o jurado número oito, o arquiteto Davis, vota pela inocência do acusado, e não por acreditar nela, mas sim, porque acreditava que havia “dúvida razoável” sobre o caso, o que seria suficiente para inocentar o acusado. É possível notar que, grande parte da história se passa na sala do júri onde, doze elegidos para discutir o caso, trocam informações acerca do ocorrido e discutem suas opiniões, sendo estas, causadoras de muitas contradições de pensamentos e ideias. Vale lembrar também que o fator do pensamento racional esteve presente, quando Davis começa a questionar as provas e os depoimentos apresentados por outros participantes. A cada prova/depoimento prestado, um dos jurados mudava sua posição frente a ocorrência do assassinato, visto que, ficou evidente a motivação naquela sala do tribunal, que vão desde a indiferença, até o orgulho, passando pelo senso comum.

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Análise Crítica:

As investigações sobre os grupos operativos iniciaram a partir da Experiência do Rosário, realizada em 1958, planejada e dirigida pelo doutor Enrique Pichon-Rivière, visando a aplicação de uma didática interdisciplinar, de caráter cumulativo, interdepartamental e de ensino orientado. Alguns temas eram propostos e elaborados posteriormente por grupos heterogêneos de pessoas, compostos por professores, estudantes de cursos diversos, artistas, esportistas e público em geral, eram conduzidos por um coordenador, que atuava favorecendo a comunicação intragrupal, e havia também um ou dois observadores que registrava tudo o que acontecia (PICHON-RIVIÈRE, 2009).

De acordo com Pichon-Rivière (2009) esta didática é baseada na preexistência de um conjunto de experiências, conhecimentos e sentimentos pelos quais o indivíduo pensa e age, que adquire unidade com o trabalho realizado em grupo, sustentado pelo denominador em comum. Desta forma, estudantes de diferentes faculdades e cursos estudariam matérias em comum dentro de um mesmo espaço e criando inter-relações entre eles.

O autor nos traz então a noção de grupos de discussão ou de tarefa, que funcionam com a finalidade de obter uma comunicação ativa e criadora dentro do grupo, compreendendo um estudo detalhado de todos os aspectos de um problema, como forma de investigação operativa, que oferece a base para tomada de decisões, por isso é importante que o grupo seja heterogêneo, para que tenha integrantes relacionados a diversas áreas do problema a ser solucionado e assim, observar os elementos em comum e analisar as possíveis soluções para o mesmo. A comunicação grupal se daria por meio de um esquema conceitual, referencial e operativo, que tende a se tornar uma espiral dialética na qual descobrem ou redescobrem, aprendem e ensinam. Há ainda cinco momentos da operação, que seriam o estado de dúvida que é causado pelo problema apresentado; na sequência viria o estado de tensão; após seria a emergência subsequente de um problema; posteriormente a formulação de hipóteses e a escolha da mais apropriada ao caso; e por último a resolução da dúvida inicial (PICHON-RIVIÈRE, 2009).

Pichon construiu o ECRO que corresponde a “esquema conceitual referencial operativo”, este sistema visa os fatores tanto conscientes como inconscientes que se aplica a campos grupais, estes se manifestam através da mente, do corpo e do mundo externo. Este esquema permitiu um aperfeiçoamento dos estudos sobre os fenômenos grupais, com a finalidade de operar para realizar determinada tarefa. Em outras palavras, o Ecro é um conjunto sobre as experiências do sujeito, sobre seus pensamentos, sentimentos e ações de acordo com seus conhecimentos e afetos. O uso do ECRO possibilita novas compreensões e possíveis ressignificações da dinâmica de grupo. (Medeiros, M. Santos, F. A, 2011).

Vemos claramente, no filme em questão, este modo de funcionamento do grupo operativo em ação, já que os jurados estão ali reunidos para a resolução de uma “tarefa” em comum, julgar se o réu é culpado ou inocente pelo assassinato de seu pai, realizando para isso um estudo detalhado do caso, observando todas as provas, os elementos em comum, analisando todas as hipóteses possíveis para uma tomada de decisão.

Já a pré-tarefa é o movimento de resistência a abordagem do objeto de conhecimento e ao esclarecimento das implicações subjetivas e objetiva dos sujeitos. Sendo assim, se o grupo superar esse movimento, os obstáculos que reforçam esse movimento e dar ênfase à comunicação e o aprendizado, logo superará a sabotagem, assim o grupo poderá desenvolver a capacidade de estar centrado na tarefa.

Nota-se a presença da pré-tarefa no momento que o oitavo jurado vai contra o restante do grupo, onde acredita que o réu pode ser inocente, nesse momento, os demais jurados vão contra a análise do oitavo júri, resistindo a essa possibilidade, mas, após a explicação do mesmo de como seria correto analisar o caso, os demais superaram os obstáculos e procuram analisar de forma detalhada, levando em consideração, o momento, provas concretas, depoimentos e etc. Sendo assim, superando a resistência pré determinada que estava presente naquele momento.

       Sabemos também que a presença do coordenador é muito importante, assim também como a sua intervenção, pois, o seu papel é de indagar, de problematizar, fazer com que os demais do grupo pensem, reflitam sobre as questões a serem desenvolvidas, assim também como a importância da escuta.

     No grupo, a escuta pode ser provocativa na medida em que o coordenador, problematiza, levanta questões, propõe cortes e rupturas nas falas. Além dele escutar, ele devolve o que escuta para os integrantes tentando surpreendê-los, desestabilizá-los, fazê-los escutar sua própria fala, podendo com isso, provocar novas perspectivas e descobertas. (BASTOS, 2009).

O coordenador aponta o questionamento de cada um do grupo, mostrando uma outra forma de pensar, e com isso, eles podem mudar suas idéias, postura e decisões.

Podemos perceber que no filme, cada um está tomando suas decisões pessoais e não analisando o caso. É comum todos seguirem a maioria, claro que isso está de forma errada, mas no filme mostra muito bem que eles queriam encerrar logo o caso, assim colocando o acusado em condenação. Mas um trabalho em grupo, precisa que todos estejam em concordância e os fatos bem esclarecidos.

Em relação aos papéis no grupo, podemos dizer que alguns são fixos, como o papel do coordenador e do observador. O observador é representado no grupo operativo como indivíduo não participante. Por sua característica de permanecer silencioso, recolhe material expresso tanto verbalmente como pré-verbalmente, servindo de projeção.

O observador registra o que ocorre na reunião, resgata a história do grupo e depois analisa os pontos emergentes, o movimento do grupo em torno da tarefa e os papéis desempenhados pelos integrantes junto ao coordenador. Após a análise pode-se então repensar as hipóteses formuladas e adequá-las em função do processo grupal de acordo com os elementos reunidos. (CAMPOS, 2010).

Durante a decisão sobre a sentença apresentada no filme, é possível identificar a necessidade da união dos fatos e reflexão para se chegar a uma conclusão final, ao passo que as informações pertinentes e coerentes foram repensadas pelo júri, o material recolhido transformou as projeções e decisões baseadas apenas em julgamentos e estereótipos.

Tendo definido o grupo como uma unidade de análise, ao abordar o conceito porta-voz, sabemos que este não se refere apenas a algo que é comunicado oralmente, más tudo o que ocorre a um determinado elemento do grupo e que nos remete a um conjunto no qual estamos inseridos, ou seja, toda forma de conduta. Sendo assim, tal conceito, em sua amplitude, indica que uma estrutura grupal sustenta um acontecimento individual. Então fica evidente que, o psiquismo dos membros do grupo pode ser promovido por intervenções destinadas a alterar essa estrutura grupal, pois, apresenta-se como instrumento de transformação da realidade, e os integrantes passam a estabelecer relações grupais que vão se constituindo, na medida em que começam a partilhar objetivos comuns, a ter uma participação criativa e crítica e a poder perceber como interagem e se vinculam (PICHON-RIVIÉRE, 1994).  

Com ênfase no filme, é possível observar então, que o 8° Júri se torna o porta-voz do grupo, logo, é aquele que tenta explicitar o que já está explícito, mesmo quando, em um primeiro momento, todos estão contra ele, o sentimento do grupo, em geral. É possível notar que se torna existente a tentativa de expressar por todos os membros do grupo, uma visão diferente daquilo que se opõe a discutir, tentativa esta que leva a um certo confronto, como, por exemplo, o último júri que resistiu intensamente em não acreditar nos paradeiros que pode levar o jovem julgado a inocência de seus atos (PICHON-RIVIÉRE, 2009).  

Sabendo que todo grupo tem uma tarefa e um objetivo na qual seus membros almejam alcançar em conjunto, o grupo operativo é aquele centrado em uma tarefa de forma explícita, por exemplo, aprendizado, diagnóstico de dificuldade, então é o porta-voz  o emergente que denuncia a ansiedade predominante a qual está impedindo a tarefa e permite a reflexão fundamental do que se propôs a decidir (PICHON-RIVIÉRE, 2009).

Deste modo, o porta-voz que surge diante de uma necessidade de anunciar ou denunciar um acontecer grupal, que está relacionado com uma situação dissimulada no âmbito do grupo (muitas vezes um dilema no fazer da tarefa), assim, ele permite que se abram duas possibilidades a todos os que cooperam: ou os demais membros encaram as dificuldades e passam a resolvê-las, ou o grupo entende que esta dificuldade é somente daquele sujeito que enuncia, no caso, o porta-voz.  No entanto, se o porta-voz não é ouvido, ele passa a ser o bode-expiatório do grupo e os outros passam a hostilizá-lo de modo sutil, pois, não reconhecem sua mensagem (PICHON-RIVIÉRE, 1994).

Ressaltando a respeito do bode expiatório, no grupo operativo, ele é identificado naquele sujeito que não tem aprovação do grupo em sua fala. (GAYOTTO, 1992). Esse sujeito é usado como um depositário do grupo, sendo culpabilizado e pode ocorrer a expulsão do sujeito que representa o bode expiatório no grupo. Se ocorre a expulsão o grupo tende a substituir e atribuir a função a outro participante. Pode ocorrer também do grupo atribuir ao bode expiatório a imagem de alguém que os entretém e causa  uma comoção cômica, dessa forma, o grupo mantém este participante para seu divertimento. (ZIMMERMANN, 2000).

No filme “Doze homens e uma Sentença” identificamos o papel de bode expiatório, na maior parte do filme, exercido pelo Sr. Davis que foi escolhido como oitavo jurado. Na primeira votação para discutir a inocência ou culpa do réu, o oitavo jurado é o único que se opõe ao voto dos demais, alegando acreditar que o réu possa ser inocente. Isso causa bastante alvoroço e desconforto no grupo, logo o oitavo jurado é culpado por estar em discordância e com isso alongar o tempo de tomada de decisão, já que, a maioria tinha pressa em decidir sem mesmo argumentar os fatos relacionados ao crime em questão.

O processo de culpabilização se expõe em alguns momentos, como quando o jurado número 3 reclama que tem ingressos para ver o jogo mais tarde, e que o oitavo jurado iria atrapalhar a todos e usufruir de um tempo que não dispunham para essa discussão, ele até sugere que o que o oitavo jurado queira chamar atenção ou “bancar” o esperto, assim, desvalidando sua fala. Já o líder de mudança surge no momento em que o que foi explicitado pelo porta voz é aceito pelo grupo contribuindo para o movimento dialético grupal (GAYOTTO, 1992).

Desta forma entende-se que o líder de mudança, é aquele componente que provoca, estimula a tarefa e se encarrega de levá-la adiante, instigando o grupo no mesmo objetivo, sugerindo coisas novas levando o grupo a buscar algo novo, a mudança. Podemos ver esse papel sendo executado. Esse papel fica explícito no papel do júri número 8, ele se apresenta no papel de líder de mudança, pois busca alcançar o objetivo de decidir o destino do acusado, sendo esta a tarefa do grupo. Esse papel de líder de mudança vai sendo apropriado pelos personagens conforme se apropriam do objetivo da tarefa. Sendo este o objetivo do grupo operativo a resolução de uma tarefa:

“[…] O grupo operativo é antes de tudo, uma abordagem teórica fundamentada na psicologia social de Pichon-Riviére, centrada no processo de inserção do sujeito no grupo, no vínculo e na tarefa (VASCONCELOS, GRILLO E SOARES, 2009, P.43).”

Sendo o grupo composto por pessoas distintas que apresentam  histórias pessoais de forma consciente e inconsciente, como é o caso do grupo, cada integrante do júri tem uma história de vida, uma profissão e consequentemente uma forma de pensar. Na medida em que se estabelecem como grupo passa a partilhar as necessidades em função de objetivos comuns criando uma nova história, entretanto, quando a  barreiras na comunicação faz surgir momentos contraditórios e confusos no grupo, e nesse momento é preciso que um integrante do grupo se aproprie o papel de líder de mudança fazendo o grupo se lembrar da real função do grupo que é o consenso em função da tarefa. (Abduch, 1999)

Para levar o grupo na execução da tarefa, o líder de mudança tem trabalhar com o grupo o movimento dialético, o líder expõe sua tese provocando no grupo emergir uma antítese, e desse conflito entre tese e antítese surge a síntese, que é uma situação nova, ao fim desse conflito a comunicação tenha se estabelecida. (PICHON-RIVIÈRE, 2009).

Nesse movimento dialético, idas e vindas do movimento, que conceitos como o preconceito, estereótipos, tabus, fantasias inconscientes vão se ajustando e sendo corrigidas em atitudes plástica e criativa (Abduch, 1990). A teoria de Pichon é bem evidenciada no filme, pois diante do debate sobre a inocência ou culpa do réu, o jurado número 8 começa a explicar o porque não vota pela condenação, para ele há vários pontos duvidosos. A partir disso, ele apresenta sua tese pautada na lógica, por exemplo, ele levanta o questionamento do tempo que uma testemunha, um senhor idoso, levaria para percorrer tal distância sobre determinado tempo, e com isso abala a certeza dos demais jurados. Nesse confronto, antíteses devem ser apresentadas para que eles se conversa da inocência, e ao apresentarem suas síntese, na culpa do jovem pela da morte do pai muitas crença, estereótipos e preconceitos são deixados de lado. Isso fica explícito na fala do jurado número 6 ao defender seu voto dizendo que o jovem cresceu na violência e por isso esta atitude se tornou normal na sua rotina.

Conclusão

O grupo operativo é considerado uma estrutura operativa que possibilita aos integrantes meios para que eles entendam como se relacionar com os outros. O objeto de formação do profissional deve instrumentar o sujeito para uma prática de transformação de si, dos outros e do contexto que estão inseridos no grupo, permitindo assim, a ideia de que a aprendizagem é sinônimo de mudança, na medida em que deve haver uma relação dialética entre sujeito e objeto e não uma visão unilateral, estereotipada e cristalizada.

Uma aprendizagem centrada nos processos grupais coloca em evidência a possibilidade de uma nova elaboração de conhecimento, de integração e questionamentos acerca de si e dos outros. É um processo contínuo em que a comunicação e a interação são indissociáveis, na medida em que aprendemos em relação com o outro.

Em vista disso, a técnica do Grupo Operativo de Pichon-Riviére, consiste em um trabalho coletivo, cujo o objetivo é promover aprendizado a todos os membros envolvidos, através de uma leitura crítica da realidade, uma atitude investigadora e exploratória que não se inquieta as dúvidas presentes.  Através da articulação do filme com a teoria apresentada em sala, pudemos relacionar e verificar os papéis de um grupo operativo e como se dá a relação entre eles e que alguns papéis podem ser transferidos e desempenhados por diferentes sujeitos no decorrer da relação, enquanto o coordenador e o observador se mantém concentrados e não transferíveis.

É muito importante a verificação de quem são os sujeitos e quais são os papéis que desempenham em grupo, assim, proporcionando ao profissional psicólogo uma maior compreensão sobre o grupo e o mundo dos sujeitos que o constitui.

Desta forma, com a utilização dos meios de conhecimento e das informações coletadas de forma correta, o profissional poderá analisar e relacionar de forma eficaz e coerente casos que lhe sejam apresentados.

Referência Bibliográfica

FILME: 12 HOMENS e uma sentença (12 Angry Men). Direção: Sidney Lumet. Produção: Henry Fronda. Roteiro: Reginald Rose. Estados Unidos, 1957. 96 min. Son, P&B.

ABDUCH, C. Grupos Operativos com Adolescentes. In: BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Área de Saúde do Adolescente e do Jovem. Cadernos, juventude, saúde e desenvolvimento. v. 1 Brasília, DF, ago. 1999.v. 1.

CAMPOS, A. B. B. I. A técnica de grupos operativos à luz de Pichon-Rivière e Henri Wallon. Psicólogo in Formação, ano 14, n. 14, jan./dez. 2010

GAYOTTO, M. L. Conceitos básicos que facilitam a compreensão do início de um grupo. Artigo referente ao curso de especialização em Coordenação de grupos operativos do Instituto Pichon-Rivière. [S.l.: s.n.], 1992.

PICHON-RIVIÈRE, E. O processo grupal. São Paulo: Martins Fontes, 2009. (capítulo 13).

PICHON-RIVIÈRE, E. Teoria do Vínculo. 5ª edição. São Paulo: Martins Fontes, 1994.

VASCONCELOS, M.; GRILLO, M. J. C.; SOARES, S. M. Práticas pedagógicas em Atenção Básica à Saúde. Tecnologias para abordagem ao indivíduo, família e comunidade. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2009.

ZIMERMAN, D. E. Fundamentos básicos das grupoterapias. Porto Alegre: ARTMED, 2000.

ZIMERMAN, D. E. Fundamentos básicos das grupoterapias. Porto Alegre: ARTMED, 1993.

MEDEIROS, Mário; SANTOS, Fabio Alves dos. O conceito de Esquema Conceptual Referencial Operativo – ECRO e o processo de ressocialização de apenados: um estudo etnográfico-hermenêutico. Barbaroi,  Santa Cruz do Sul ,  n. 34, p. 4-22, jun. 2011 .

 

ASSINADO: Anderson Gouveia/Universidade Paulista UNIP – Sorocaba/SP – 2018

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A terapia cognitivo-comportamental no tratamento dos transtornos mentais.

O modelo cognitivo comportamental surgiu no final dos anos 50 com os trabalhos de Albert Ellis e mais especialmente a terapia cognitiva (CT) no início dos anos 60 com Aaron T. Beck. Desde então, vem exercendo um forte impacto tanto na formulação de novos modelos etiológicos para os transtornos mentais como no seu tratamento.

Beck, um psiquiatra com formação psicanalítica, ao pesquisar pacientes deprimidos, tendo como referência o modelo psicanalítico da depressão, concluiu que neste transtorno o paciente apresentava uma visão distorcida e negativa de si mesmo, do mundo ao seu redor e de seu futuro. Formulou a hipótese de que tal tríade cognitiva negativa seria decorrente de esquemas cognitivos disfuncionais negativos, rígidos e não realísticos, formados durante a infância em decorrência das interações com o ambiente, que seriam os elementos críticos para o surgimento, a manutenção e a recorrência da depressão.conceito-do-logotipo-da-psicologia-e-da-saúde-mental-58762008

Coerente com esse modelo teórico, desenvolveu um conjunto de técnicas com o objetivo de corrigir tais crenças distorcidas e, assim, aliviar os sintomas depressivos. Surgia assim a TC como um novo modelo explicativo para o desencadeamento e a manutenção dos sintomas depressivos e seu tratamento. Ensaios clínicos controlados comprovaram posteriormente que a TC apresentava uma eficácia semelhante à observada com o uso de antidepressivos no tratamento da depressão.

Hipóteses explicativas baseadas no modelo cognitivo mais geral foram sugeridas para os diversos transtornos de ansiedade, como o transtorno obsessivo-compulsivo, a ansiedade generalizada, o transtorno do pânico e a ansiedade social, estendendo-se para a dependência química, os transtornos alimentares e os transtornos de personalidade. Os modelos explicativos de todos esses transtornos propõem um papel dos erros no processamento de informação como fatores de vulnerabilidade cognitiva, os quais, associados a fatores genéticos, neurobiológicos e ambientais, interagem no desenvolvimento e manutenção dos sintomas. No momento, investigam-se modelos cognitivos para outros transtornos como a esquizofrenia e o transtorno bipolar, entre outros, tentando integrá-los com as recentes descobertas da neurobiologia molecular, da neuro-psicologia e da genética. Estudos de neuroimagem vêm demonstrando os correlatos neurobiológicos da ação da TC no cérebro.

A designação mais abrangente de terapia cognitivo-comportamental (TCC) é a mais usual na atualidade, pois utiliza ao mesmo tempo intervenções típicas do modelo cognitivo, como as técnicas destinadas à correção de crenças e pensamentos disfuncionais e incorpora técnicas comportamentais da terapia comportamental, como a exposição e o uso de reforçadores, entre outras. A grande aceitação do modelo cognitivo e cognitivo-comportamental se deve a diversos fatores: 1) a proposição de diversos modelos de grande valor heurístico, que possibilitam uma visão mais abrangente da psicopatologia dos transtornos mentais ao incorporar, aos diferentes modelos etiológicos, o papel dos pensamentos e crenças disfuncionais, além das aprendizagens errôneas; 2) a proposição de modelos e hipóteses testáveis por meio do desenvolvimento de intervenções psicoterápicas geralmente breves, cuja eficácia pode ser facilmente aferida; 3) a curta duração dos tratamentos de transtornos de Eixo I, que proporciona uma melhor relação custo/benefício em relação aos tratamentos tradicionais;4) a elaboração de protocolos e manuais que permitem sua padronização e reprodutibilidade por diferentes pesquisadores; 5) o desenvolvimento de escalas e instrumentos para aferição de desfechos e a curta duração dos tratamentos possibilitou um melhor controle de variáveis intervenientes, uma melhor aferição dos resultados – barreiras até hoje não transpostas pelos tratamentos de longa duração possibilitando uma grande expansão da pesquisa da TCC.

A eficácia clínica da TCC tem sido bem estabelecida em estudos controlados, no tratamento de quadros depressivos unipolares, tanto em adultos como em crianças, no transtorno do pânico com e sem agorafobia, na fobia social, no transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), no transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), e em estudos não controlados na esquizofrenia e na bulimia nervosa. A TCC está sendo testada numa série de outras condições psiquiátricas, como na dependência química, especialmente na prevenção de recaídas, nos transtornos de personalidade, no transtorno delirante, no transtorno do humor bipolar, no transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, nos transtornos de impulsos, no tratamento de problemas conjugais, em problemas médicos como a dor crônica, entre outros.

Em boa hora, os editores da Revista Brasileira de Psiquiatria decidiram oferecer aos seus leitores um suplemento no qual são descritos os fundamentos e as aplicações da TCC naqueles transtornos cuja eficácia tem sido estabelecida de forma consistente e o uso clínico tem se consagrado pela sua efetividade. Os autores são professores universitários, em sua maioria ligada a cursos de pós-graduação, que além de se dedicarem de longa data à prática e ao ensino da TCC em nosso meio, têm realizado pesquisas de qualidade internacional.

Paulo Knapp e Aaron Beck relatam o histórico das origens e fundamentos teóricos dos diferentes modelos de TCC, apontando as semelhanças e diferenças entre eles. Descreve alguns procedimentos e técnicas característicos da TC, e apresenta dados da literatura que apontam evidências da pesquisa comprovando a eficácia da TC nos diferentes transtornos,

A primeira aplicação da TC foi no tratamento da depressão. Vânia Powell et al. discorrem sobre os fundamentos da TCC no tratamento da depressão e fazem uma revisão das evidências de eficácia em curto e longo prazo da terapia utilizada isoladamente ou em combinação com medicamentos. A TCC também tem se mostrado particularmente eficaz no tratamento dos transtornos de ansiedade. Manfro et al. descrevem o uso da TCC no tratamento dos sintomas do transtorno do pânico e Ito et al. descrevem o uso na fobia social, apontando as evidências de eficácia. A TCC tem se revelado particularmente efetiva no tratamento dos sintomas do TOC. Aristides V. Cordioli apresenta um breve histórico da terapia de exposição e prevenção de respostas bem como a TCC no TOC, seus fundamentos as técnicas utilizadas, apontando as evidências de eficácia nesse transtorno. É interessante salientar que a abordagem em grupo, de forma breve, na fobia social, no TOC e no transtorno do pânico tem se revelado igualmente efetiva, ampliando as possibilidades dessa abordagem ser utilizada em instituições públicas ou mesmo privadas com grande demanda de pacientes, proporcionando uma melhor relação custo/benefício. A exigüidade do espaço de um suplemento impede a descrição do uso em outros transtornos de ansiedade como no transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) na ansiedade generalizada (TAG) e nas fobias específicas, nas quais a abordagem vem se consagrando pela sua elevada efetividade, seja como tratamento isolado (nas fobias) ou em combinação com medicamentos (TEPT, TAG, bulimia nervosa).

A TCC tem sido utilizada com sucesso no tratamento de problemas de adicção, especialmente na prevenção de recaídas. Em seu artigo, Bernard Rangé e Alan Marlatt revisam os modelos cognitivos de adicção, de prevenção de recaída e a teoria dos estágios de mudança que embasam a entrevista motivacional. Descrevem as técnicas utilizadas no tratamento desse grave problema de saúde pública.

Felizmente, as residências médicas em psiquiatria e cursos de formação, assim como os cursos de psicologia vêm inserindo a teoria cognitiva e comportamental em seus currículos e disciplinas, bem como o treinamento prático em TCC. Mas ainda são poucos os profissionais médicos que utilizam esse enfoque na sua prática diária.

A decisão dos editores da RBP de lançar um suplemento com o objetivo de divulgar a TCC entre os leitores da revista é o resultado da preocupação em apresentar esses avanços e situá-los em relação ao estado atual da TCC, e no contexto das demais abordagens dos transtornos psiquiátricos. Uma ampla lista de referências bibliográficas possibilitará ao leitor interessado ampliar seus conhecimentos.

Certamente, o presente suplemento possibilitará ao leitor menos familiarizado um primeiro contato com a TCC, especialmente no tratamento daqueles transtornos cuja eficácia está solidamente estabelecida e cuja efetividade tem sido consagrada pelo uso clínico e um estímulo para que venha a interessar-se por essa modalidade de tratamento.